sinapseEstando inserido nos movimentos da natureza, se entendermos que o homem é natureza – não se opondo a ela como um existente de “outra” natureza – então o pensamento humano é pensamento da natureza. Sendo assim, podemos indagar se há – e como são – as linguagens e manifestações do pensamento que não apenas a humana. Esse horizonte de reflexão reencanta o horizonte do pensar e pode, no limite, fazer do próprio cosmos um pensamento em si, manifesto em suas arestas, em suas curvas, na matéria, na energia, no espaço e no tempo – melhor, no espaço-tempo – do próprio universo. O cosmos inteiro pode ser pensamento, cujos pensares humanos seriam as partes dele, os movimentos dos animais, dos pássaros, dos astros e das pedras seriam linguagens e expressões de seu pensar. Se seguirmos por essa via de especulação metafísica do pensar, as perguntas multiplicam-se e, muitas, vezes deixamos de pensar propriamente para, em troca, imaginar o pensar. Não pretendo, aqui, seguir por essa via.
Quero, de outro modo, iniciar constatando que o pensamento é, inicialmente, manifestação humana. Usá-lo de modo especulativo como inquiridor de si mesmo é uma das vias possíveis de abordá-lo, ainda que, em algumas questões, parecemos não avançar nas repostas, como se não saíssemos da primeira linha. De todo modo, se optamos em pensar especulativamente, temos que deixar que essa ferramenta ganhe excelência nas perguntas, talvez mais do que nas respostas. Afinal, qual a serventia que o pensamento especulativo poderia ter se, com seu principal instrumento, que é a pergunta, não se permitisse ele mesmo inquirir a respeito do cosmos, do mundo, da alma e do divino? Se não há, até agora, respostas conclusivas a esse respeito, isso não significa que o pensamento especulativo devesse abandonar tais questões e entregar supostas respostas para outros modos de pensamento.galaxia Inconclusivos são também outros modos de pensar, ainda que eles próprios possam assegurar que suas respostas são as mais certas. Temas centrais do pensamento humano são recorrentes a várias áreas do saber, e não penso como poderia o pensamento especulativo não repetir a cada geração, espelhar e incluir em si, aquilo que, naturalmente, os humanos, no fundo, desejam saber? O pensamento especulativo é o sustentáculo da pergunta.
Afinal, o que é o cosmos? Há deuses? Por que vivemos em sociedade? O que é minha alma? O que sou eu mesmo? Se a razão pura pode se debruçar sobre essas questões seguindo por um mecanismo de perguntas e respostas, o que dizer dos modos de pensamento que estiveram antes do sistema especulativo do pensar? Digo, antes de surgirem a elaboração das perguntas e mais pelo espanto, pelo medo, pela admiração ou pelo êxtase dos primeiros humanos, como teriam sido as noções que os guiaram? Afinal, a filosofia não é o único modo de pensamento, outros modos que não ela – e muito antes dela –, seguiram por outras vias para ordenar demandas iniciais no horizonte interno de cada humano dos primeiros tempos. Mitos, ritos iniciáticos e linguagens cifradas anteciparam em muito o pensamento especulativo. É certo que depois da – diríamos – descoberta do sistema de elaboração de perguntas sobre o estabelecido, a especulação ganhou espaço indelével no trajeto do pensar e, combinada com modos de pensamento anteriores, acabou gerando outros modos, fosse a teologia, a mística ou a ciência moderna, por exemplo. De cada um desses modos de pensamento vimos resultar, ao longo da história, estruturas mais ou menos constantes no interior das comunidades, recortadas artificialmente em disciplinas contemporâneas tais como religião, política, moral, estética, técnicas etc. como se tivessem sido elas mesmas separadas na realidade.altamira
De toda maneira, pergunto-me o que será que todos esses movimentos do pensamento tiveram e têm em comum? Certamente, e em primeiro lugar, têm eles em comum o fato de serem um modo de manifestação de uma suposta interioridade, fosse de um determinado indivíduo, fosse de um determinado grupo. Mas, como é possível identificamos esses pensamentos? Ora, aquilo que foi pensado no passado permanece manifesto no presente, seja completamente, seja parcialmente. Ou seja, sempre há uma marca, algum tipo de registro que indica, assim, os movimentos do pensar. As marcas, como já vimos, podem ser uma gravação escrita ou pictóri ca, uma edificação arquitetônica ou funerária, uma ação ou um feito, enfim, sempre há uma marca que testemunha, no presente, a existência de um pensamento passado. Para compreendeermos os movimentos do pensamento cabe, assim, reconduzir o gerado à sua fonte originária de produção e perguntar-se: o que será que pensava o humano que fez isso, ou seja, qual o sentido dessa marca do pensamento que tenho à minha frente?
Não é difícil perceber que, geralmente, as marcas dos pensamentos dos humanos dizem respeito a três instâncias básicas: o cosmos, a sociedade e o próprio homem; ou, em outras palavras, a natureza inteira, o mundo dos próprios homens e aquilo que ele supõe ser sua interioridade. Nessas três instâncias as marcas interpenetram-se de imagens, de ditos, de mitos e de ritos para tentar dar sentido à perguntas básicas: o que é a natureza, o grupo em que vivo, e como devo agir? É bem verdade que as respostas se multiplicaram e separaram os humanos – talvez desde o início – como se, a partir de seu suposto saber, pudessem eles eliminarem, subjugarem, escravizarem ou converterem uns às respostas dos outros. A ilusão do saber e suas peculiares respostas separaram os humanos. Não foram as perguntas. Estas, enquanto espelham não a ilusão do saber, mas a realidade do ignorar, nos unem. Respostas variaram de ênfase, de princípios, mas cobriram e se limitam a essas três áreas. Eu, o outro e o todo foram os estreitos e enigmáticos âmbitos pelos quais o pensamento dos humanos se moveu até aqui, multiplicou-se e, aparentemente, mostrou-se diverso. Múltiplo na superfície, uno nas profundezas. Separado nas respostas, unido nas perguntas.terra
Em todo esse polifacético e ancestral continuum do pensamento, se seguirmos operando somente com as categorias da pura razão em si mesma, não vamos além da construção de uma estrutura de elementos cognitivos autoreferentes e válidos apenas no interior de suas próprias composições, quero dizer, tomamos as correntes de pensamentos, tipos e modos como se não houvesse para eles circunstâncias histórico-geográficas. A metodologia que proponho é a de apoiar a geração dos modos de pensamento – de suas correntes e de suas áreas sistematizáveis – na cronologia, recuperando, assim, um tecido de circunstâncias anteriores, no qual, além do puro abstrato da própria especulação, há o circunstancial cronológico e geográfico garantindo mais materialidade ao pensar. Assim, liga-se o pensamento não só à cronologia, mas à geografia na qual ele foi elaborado, pois, a cronologia, o espaço e o sensorial afetam o resultado do pensar – isso se não forem, em certo sentido, ele mesmo. Dessa maneira, quando é gerado um pensamento em certo tempo e espaço, alguma marca é feita a partir dele em algum lugar e em algum tempo – em alguns casos, repetida no interior de uma cultura –, por exemplo, registra-se pictoticamente um fato, erige-se um monumento ou escreve-se um livro. O último estágio dessa marca é sua transmigração para outros lugares ou outros tempos, além daqueles nos quais ela foi gerada, tornando-se, esta última, sempre uma outra versão de si mesma, em comparação à sua inatingível ocorrência primeva.
Não só traduções, reproduções pictóricas, mas mesmo o deslocamento de viajantes foram e têm sido os veículos por meio dos quais os pensamentos viajam e chegam a lugares e tempos distantes daqueles nos quais foram gerados, por meio de suas marcas.sinapses2 Ignorar essas transmissões nos faz errar a respeito da natureza das criações do pensamento dos humanos ao longo da sua história. Se insistimos no erro das visões parciais não podemos compreender, em sua completude, o sentido das marcas do pensamento da Terra. Sendo assim, penso que a apreensão das marcas do pensamento é feita com maior lucidez quando feita a partir da tríade do pensamento, da história e da geografia. Ou seja, tentativas de apreensão e entendimento que têm como premissa que o espaço, o tempo e o pensamento são realidades separadas, acabam por desfocar a visão correta que se dirige à apreensão unívoca da tríade espaço-tempo-pensamento. Talvez a única realidade. Se não ela, ao menos suas marcas. É disso que se trata.

Miguel Attie Filho, 16 de maio de 2013.

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