25 de marco_2Mais uma manhã, e a voz trovejante de meu pai soava meu nome: Miguel! Miguel! Seria eu ou seria ele? Afinal, era o mesmo nome, o meu, o dele. Escondia-me, então, sob as cobertas, fingindo dormir. Naqueles dias, fugir do trabalho, assim como fugir do médico, do banho e de cumprimentar pessoas estranhas na sala de nossa casa parecia ser a principal tarefa de uma criança. Aos doze anos, a maioria ia para a rua, mas a loja de meu pai assombrava-me, e era como um fantasma a me perseguir. Os mais velhos, porém, com afeto no olhar me aconselhavam: pequeno Miguel, já está pronto? você deve ir. E eu fingia desmaiar, esquentando a testa para parecer febril. Mas, eles não desistiam de mim: vá querido, vá porque a vinte e cinco é uma faculdade, não qualquer uma, mas é a faculdade da vida. Não sei como explicar, mas eles tinham razão.

Miguel Attie Filho, 15 de abril de 2015
Imagem: Foto: O Luiz/Arquivo/AE
 Fonte: http://noticias.band.uol.com.br/cidades/galeria/?id=1000003653#foto8
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